São os pássaros a esconderem-se na copa das árvores e ela a adivinhar o que se perderá se ele partir. Será o descalabro se as botas dele descerem pela última vez aquela estradinha íngreme e deserta. Já não há pedidos de desculpas que possam servir para apaziguar os gritos, ainda que mudos, de alguém que se perdeu faz hoje precisamente muito tempo.
Sempre se deu conta que as botas seriam demasiado pesadas para ele, ele demasiado para ela, e ela demasiado pesada para si própria. E quantas foram as vezes que se abraçaram entre lágrimas e pés frios, jurando mentiras que já se sabiam ser apenas isso mesmo, ainda assim camufladas de verdades a longo prazo.
Hoje falta o silêncio na hora certa, e falta na hora certa porque há sempre silêncio. Falta a meninice, o sentido de abraço e de beijo, a noção de definir o que são eles ainda, um a um, quatro menos dois, como parte ou como o todo. O tempo encarregou-se de os tornar repelentes de si mesmos, apelantes de frustrações e risadas ensaiadas para as mesmas piadas, os mesmos momentos repetidos do dia. Olhar para trás não adianta nada, ninguém vive de memórias, ninguém é feliz com canções, cheiros ou sabores que fazem lembrar aquilo que fomos em tantas alturas, aquelas que consideramos agora, terem sido o tempo das nossas vidas. A raiva foi-se tornando mágoa, o amor se existia, hábito. E o relógio, as obrigações e responsabilidades dos momentos encarregaram-se de tornar o afecto como um adorno sem importância. E ela chora por dentro, não tem mais palavras molhadas para materializá-las, enquanto ele abafa as suas feridas por baixo de uma carapaça de cortiça fragilizada e esburacada em tempo de Inverno. Se para ela as lágrimas são palavras molhadas, para ele não passam da fraqueza dos loucos e deslocados. Não se amam. Talvez nunca se tenham amado. Mas ela não consegue sequer imaginar o que se perderá se ele partir. Será certamente o descalabro se as botas dele descerem pela última vez aquela estradinha íngreme e deserta, a qual dizem sempre de modo ostentoso, “levar à porta da nossa casa”.
Sofia, Junho 2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
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1 comentário:
Sabes o que encontrei há uns dias? Um poema escrito por ti em folhas de diário cor-de-rosa dirigido a um certo jogador de ping-pong de polivalente ;)
perdoa-me a inconfidencia... mas não resisti =)
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