sexta-feira, 23 de maio de 2008

"Cem anos de solidão"

Fui-me acordar para ter a certeza que ouviria de mim umas quantas frases batidas, mas sentidas alusivas á grotesca agenda de números e dias onde definha a linha em que me apoio para não ir caindo tanto. E mais uma folha que se risca, já passou e já morreu, “um dia a mais do que ontem” como dizem por aí.
É Primavera mas faz frio demais para me suportar ardida em ânsias e suores como quem não vê um palmo à frente dos olhos. Começa tudo a enublar-se, quanto mais fundo me arrumo, nas folhas rasgadas de outros “carnavais” que releio em jeito de repescar o melhor dos piores dias que passei.
Hoje vem gente para jantar e vou sentá-los um a um como se fossem meus e vou ser eu a introduzir as palavras que me apetecer, sejam elas apenas do meu interesse.
Afinal, não é apenas por não querer estar sozinha, é por ter medo de estar sozinha. Ás vezes estou eu e o gato, às vezes está o gato e eu. Às vezes nem um nem outro. E tem que haver alguém que precise de ouvir o que eu tenho para dizer, estas paredes já se tornaram obedientes demais e deixam-me sempre frustrada enquanto se mantêm imunes em dar-me uma resposta esclarecedora ao que incansável e obsessivamente lhes impregno a escutar.
Não faço questão de pedir desculpas se me tornar maçadora quando começar deslindar os textos tantas vezes ensaiados ao espelho, de revolta, pesar e profunda sede de querer apenas um pouco mais.
Não me peçam para parar se acharem que realmente me alongo e me excedo de maneira desmedida nos meus desabafos de agora. (Juro que estou a tentar recortar os melhores momentos de mim).
Fiquem mais um bocadinho, é que preciso tanto de alguém.
É que por mais que tenha ausência de tudo, sobram-me sempre duas mãos cheias de solidão.


Sofia, 2008

domingo, 18 de maio de 2008

Falta de tempo

Nos dias que correm dou por mim a perguntar o porquê de mais um sem fim de coisas que me remoem o juízo.
A idade dos porquês não morre nunca. E não morre porque há sempre um “ je ne sais quois” que resiste e nos tira o sono a toda a hora.
Aqui estou eu sentada numa corriqueira estação de autocarros, embrenhada em olhar quem passa, quem vai ficando. Á espera. “Esperamos todos”, penso.
E vamos ficando assim, apinhados em hora de ponta, alguns em pé outros sentados, inventando formas e apetrechos para “queimar” tempo.
Uns com os phones “atarrachados” nos ouvidos, outros a “esfumaçar” cigarro atrás de cigarro, uma senhora que lê Lobo Antunes. ( quero ler aquele livro) e outros simplesmente que olham, como eu.
Momentos mortos, indústria do nada. Whatever. E ainda levamos a vida a queixarmo-nos de tudo o que heroicamente faríamos, não fosse a derradeira, a engenhosa falta de tempo. Não é tempo que falta aqui, meus caros. É atitude.
Gente confinada à rotina de hoje e de qualquer sempre, hibernados em redomas de vidro, preocupados exclusivamente com o facto de não dar passos maiores que o estúpido quadrado limitante e limitado ao qual se propuseram obedecer.
Fugimos todos dos olhares uns dos outros, não vá a boca querer sorrir, e depois…
Qual quê! Não se sorri! (“cada macaco no seu galho”)
E os minutos partem, as pessoas partem com eles dando lugar a outros que chegam, com novas bagagens, novos sonhos, novos quadrados.
Também eu me vou embora. Sem ter falado com alguém, sem ter sorrido a uma “alminha” sequer. E somos todos felizes assim.
Ponho a mala às costas, sigo para casa. Adeus, até segunda-feira!
P.S- Tenho mesmo que arranjar tempo para ler aquele livro.


Sofia, 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Das duas uma: ou é ou não é. Trinta e cinco minutos (mais coisa, menos coisa) depois da porta fechar não me venhas dizer que afinal decidiste. Eu também não sou flor que se cheire, tantas as vezes que brinco contigo como se fosses um boneco de trapos que eu gosto de manusear e usar nos meus teatrinhos boémios. Há dias em que não me convéns, desculpa. O amor tem destas coisas, tudo muito perfeitinho é agoniante, para não dizer erróneo.
Não contes com a minha esquisitice rabugenta nessas tuas expedições ao fim da porta, nas fitas de “vou-me embora, não queres saber de mim”. Não me ponhas no mesmo saco que enches de laranjas do quintal, que eu não sou pêra doce e muito menos sumarenta. Estás farto de me veres descer as escadas e remoer cada pedacinho do que sou e eu estou farta de sarar feridas, para depois ter o corpo tatuado de cicatrizes.
Tenho a paciência a fritar com os pastéis para o almoço e não dou mais um passo além do que a minha consciência me permite.
Não me digas que sou eu a culpa de tantos pratos partidos, de tantas lágrimas choradas.
Posso gostar de ti, até assumo. Mas gosto muito mais de mim. E faz tempo que foi a última vez que cedi. Põe as mãos na cabeça, grita, faz o que quiseres. Se queres ficar, fica. Mas estás muito enganado se pensas que estou para aí interessada em mais uma cena de novela barata. Das duas uma: ou é ou não é. Ou continuamos já a viver, saltando a fase das desculpas e arrependimentos mesquinhos, ou sai porta fora e não voltes nunca mais.
É que faz-se tarde, tenho o fogão no máximo e para variar, esqueci-me de virar os pastéis.


Sofia
Dei por mim a pensar que é nestes dias que ainda espero que me entres pela casa dentro com um sorriso rasgado na cara, de malas às costas e perfume a condizer.
Que não precises de dizer que ficas, que seja eu adivinhar pelo jeito como te moves desta vez, com rota definida e as coordenadas todas palmilhadas de cada pedaço de chão que pisas.
Deixa que seja eu a pedir que me abraces e não me atires areia para os olhos ao vires dizer-me o quanto estou bonita de manhã. Deixa-me olhar para ti e adivinhar-te com as pontas dos dedos, subindo e descendo cada centímetro da tua respiração e do teu gemer elegante quando te abraço com um bocadinho mais de força.
Eu desligo a televisão, não quero ouvir nada além de ti. Hoje não vou precisar de perguntar se ficas para jantar, a que horas te exigem noutro lado, hoje ficas e pronto. Ponto.
Não me venhas com histórias e mais histórias de “toca e foge”, “volto já” que não estou interessada noutro capítulo dessa banda desenhada que dizes sempre em tom conformista, ser a vida.
Aconchega-te a mim e diz que eu te sou suficiente. Não, melhor! Que eu te sou essencial.E quando eu te pedir para me abraçar, abraça-me, não tenhas medo de gastar os abraços e os beijos e os silêncios necessários e breves.
Podes deixar tudo onde está. Podes deixar tudo como está.
Apenas não me faças acreditar uma e outra vez que não passo de um farrapo sonâmbulo numa noite vestida de insónias.

Sofia, 2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

Não me causas mais ausência do que um dia de Agosto berrante. Até te podia dizer que te quero para sempre, mas para sempre fica tão longe, que mais perto não estarás do que a corrida fugidia em direcção ao epicentro do exagerado.
Sim, é verdade. Não tenho como não te amar. Não encontro a sintaxe, a semântica, sei lá mais o quê que se ajuste ao que de inacreditável tens sido para mim. São os bilhetes que trago na carteira, as velas que se esgotam no escuro do meu quarto, é o perfume da tua camisola que ficou por aqui…a guitarra ainda ontem tocada, ainda hoje largada a um canto…
Já te vestes em mim ajustadamente como se te tivessem concebido apenas com esse mesmo fim.
Apertas-me, largas-me, empurras-me contra a felicidade até bater com tanta força que até dói…
E a nossa loucura está plantada neste vasinho, que espera, já não é vasinho, já ultrapassou há muito, já enraizou, já abraçou chão firme… é nossa, deixa a ser, enquanto a pudermos viver não haverá nada melhor do que ser loucos. Juntos. Até que o para sempre se torne paranóico . Até lá, seremos simplesmente um. Um de dois, dois mais nenhum, cada um com loucuras diferentes, no entanto tão inseparáveis.

Sofia, 2008
Antes de mais qualquer coisa, tenho que dizer aqui explicitamente, que todos os textos apresentados são da minha autoria, o que não quer dizer que sejam todos autobiográficos.
Aqui construo e desconstruo a história de personagens que por uma razão ou outra me marcaram, mesmo que sejam apenas fruto da minha imaginação e nunca tenham sequer existido.
Portanto, as/os protagonistas das minhas histórias NÃO SOU EU.
Beijinhos, Sofia

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Em jeito de " Boas vindas".

Não vale a pena procurar sem ter vontade de encontrar, tal como não vale a pena mentir. Ligas-me hoje e amanhã outra vez e os dias passam e nós passamos com eles e o que fica é pouco para o muito em que apostei. E uma chávena de café, que tem chá, não interessa. Caiu. Caco a caco deixei-a ficar. Não consigo desviar os olhos das pinturas berrantes de tão secas das paredes ásperas e frias do meu quarto. E vejo as fotos, aquelas que em tempos foram, aquelas que nos sugaram a alma e a cuspiram para sempre num balde de lixo de esquina. E lá está tu a surgires-me outra vez das mãos, obrigando-me a desenhar-te preto no branco. Continuas esguio, magro, alto, perfumado e as tuas mãos...espera que fico sem fôlego. Passo-te um risco por cima, não te posso continuar a recortar e a fazer colagens com pedaços de ti que já não são meus.
O chão é madeira podre e os cacos da chávena de café, que enchi com chá abrem caminho por entre os tacos do soalho. O telefone toca e eu tenho que atender, porque sei que és tu, só podes ser tu. O chão dilata e um caco dos cacos crava o meu pé a fundo. Mas só podes ser tu e é agora que as fotografias vão cheirar a polaroid renascida. O telefone toca, o pé esvai-se em sangue e eu corro para atender.
Era engano. Na verdade, acho que sempre foi. Tudo o que sobra é um chão de madeira podre banhado a sangue. Só resta a presença insuficiente da esperança necessária que arrastei.

Sofia, 2008