sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Não há manobra mais infiel e menos fácil que essa de fugir do que nos espreita. Trago-te em mim como se fosses apenas descanso de um dia de Inverno amargo e nublado, uma réstia de calor e de Verão por entre a chuva que cai. Quanto mais me releio nas histórias nossas onde entrei, maior é a necessidade de me negar, de abafar-te uma e outra vez, não vás tu querer saltar-me de uma página inacabada. Estarei a mentir se disser que não me fazes de maneira nenhuma estremecer, que me mantenho incrédula à tua inquietante passagem. Não sejamos hipócritas quando falamos de coisas sérias.
Só aprendi a defender-me, a não pedir abrigo no teu ombro que cai, a não procurar o teu semblante afinado e franzino, a ter-me mais em conta do que a qualquer farrapo que possa vestir. Hoje eu vejo-me de cima, como se fosse um ponto no centro de uma lente convexa de luz e brilhos que não têm mais fim.
Deito-me nas redes que nos embalaram até partirem de tão gastas, e ponho-me a escrever o que não, o que jamais nos sairá numa ou outra conversa ocasional a meia luz.
Imaginamos o que nos falta e engrandecemos o momento de nos vermos de maneira escassa e indefinida. Só desta vez. É isso que dizemos. E eu passo a esquartejar-me delicadamente esperando que na dúvida corras para salvar-me e me ates os pulsos e os tornozelos para me obrigares a nem dar sequer a hipótese de me ausentar daqui por uns quantos segundos. Pedaço a pedaço encarno-te e lá estás tu a cair-me tão bem. Só em mim assentas que nem uma luva. Podia enumerar algumas razões que me levam ainda a trazer-te no porta-luvas do carro, em forma de cd ou coisa do género.
Quem dera que fosse hoje, oferecer-te a minha mão e acalmar a tua ânsia de abrigo.Quem dera não ter seguido para os lados sem ter olhado antes o semáforo, nem me atropelar a mim própria com gestos e segredos que enterraram até à testa. Quem dera ter tido as rédeas na mão e parado no entretanto em que ainda era tempo, ter apenas pedido licença à estupidez e abraçar-te enquanto ainda havia colo teu para me amparar.

Sofia, 2008

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Serão as paredes desta casa e tudo o que dela ficará que hão-de abafar as passadas abrangentes ao misterioso presságio que agarra o soalho e tresanda a naftalina em bolas ou noutros formatos que não sei precisar. Procuro a sincera melodia de ouvir de alguém ávido de abrigo contar a falta que não causa a solidão, a frustrante aceitação de que o nosso tempo já foi, que se eram folhas, o vento as levou. Não levantamos a mão para impedir o relógio de correr, nem o conseguiríamos fazer, mesmo se o ousássemos tentar. Mas trazemos os bolsos cheios de rasgões e de feridas que perfuram até ao centro do coração, e culpamos o mundo de tudo o que nos trouxe lágrimas e lutos de viver. Quando não temos mais nada a perder acomodar parece ser sempre a solução, e depois, cruzar os braços e os pés esperando numa cadeira de baloiço uma ou duas doenças crónicas que nos apaguem a memória e nos tornem inertes a tanta inquietude e conformismo.
Cairemos do tecto como a tinta que respinga em pedaços irregulares e nos tapa ainda mais os olhos, e não serão precisas cordas para prender desejos de liberdade, porque não os irá haver, não depois de nos entregarmos ao destino como condição geneticamente determinada.
Tropecemos sem muitas gritarias e lamentemo-nos baixinho, em breve o silencio vai instalar-se e não seremos mais do que pó na janela. Serão as paredes desta casa e tudo o que dela ficará que hão-de abafar as passadas abrangentes ao misterioso presságio que agarra o soalho e tresanda a naftalina em bolas ou outros formatos que não sei precisar.


Sofia, Agosto 2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Acredita que foste para ela muito mais do que um amor. Não te sei precisar o porquê desta minha opinião, mas quase que te posso garantir que hás-de um dia perceber o que digo. Só ficaram por pedir todas as desculpas, ou melhor, ficaram por evitar todos os erros que abriram caminho a sentimentos de culpa, só ficaram por beijar todos os beijos sumarentos e insaciáveis que da tua boca, como quem diz, das vossas bocas amargas e carregadas de exageros ainda poderiam acontecer, não fosse a tua, como quem diz, a vossa mania de orgulho ferido.
Quem vê as fotografias, quem vê de longe, digo eu, não sabe, não pode de maneira nenhuma perceber a magnífica cratera espacial que se desenhou no papel de parede cor de rosa claro da monótona felicidade a que chamavam vossa vida.
Acredita que foste para ela muito mais do que um amor. Acredita, sei-o bem.


Sofia, 2008

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dê por onde der ,hás-de lembrar para sempre o que não disse. Não procuro sombra amena debaixo de uma árvore recortada, se o sol tende a entrar pela areia quente que nos afoga os pés, mas é som de trovoada que vem ao fundo, consigo pressenti-la, como as palavras tuas que aí virão. Engoles o ar de uma vez só, como quem se prepara para o expelir em palavras metaforizadas, de modo a não caíres em desgraça e me ferires de nódoas negras e arritmias inúmeras. Eu própria me serpenteio sem lucidez, embrenhada em erguer casulos protectores à minha volta, ainda que frágeis e descabidos, são a muralha que te exponho em meu redor. E tu a pensares que seria mais fácil se eu não te afagasse o cabelo, se não fosse preciso chamares-me à razão, que fosse eu a entender-me como intrusa, como carta fora do baralho.
Assumir que nos perdemos é injusto, se os nossos dedos ainda se cruzam em nó e a saudade me morde de raiva nos dias que os nossos passos se enfrentam por estradas diferentes. Talvez até haja uma descompensação, talvez o nosso pecado passe em sermos constantes espectadores de mentiras que camuflamos de verdades só para nos sentirmos de maneira livre e encenada, felizes.
Caio do alto da montanha e aceito-me suportar o teu discurso atrapalhado e conclusivo, há momentos que são inevitáveis. Mas não me peças para falar seja o que for depois de terminares a “serenata“. O meu desmoronar interior já faz barulho suficiente para que oiças a trinta passos a tempestade infernal em que me encontro. Está bem. Que fique apenas a certeza que não voltarei a estar disponível em catálogos de romances de bolso, dê por onde der, hás-de lembrar para sempre o que não disse.


Sofia, Agosto 2008