terça-feira, 22 de julho de 2008

Consigo adivinhar como dobraste essa lágrima e a fechaste na palma da mão. Talvez, já o tenha feito também. É quando a alma se fecha num quadrado redondo e fechado e te obriga a mudares de estratégia. Não fujo do que tenho medo de ser quando estou contigo, até porque não me manipulas como pensas. No entanto falta a coragem, o sentido de oportunidade quando te tento captar a atenção e te berro nos ouvidos mil e uma maneiras de me desembrulhares que tendes em contornar como regra prioritária. Escorregares nas palavras que digo não faz de ti menos vulgar do que um dia resolveste tornar-te e não me fintes enquanto te digo isto nos olhos. Lá estou eu a exaltar-me, a criar conflito por tudo e por nada. Cala-te. Não és tu que tens que pisar estas linhas que sigo, nem sequer lá estás se a vertigem me atraiçoar. É fácil pedi-lo aos outros, os discursos estereotipados, a posição de voz e a calma dominante de psicologia barata não fazem milagres. É cá dentro. É tudo cá dentro. E à medida que vou arrumando as minhas prateleiras, os bibelôs que partimos em aventuras de meia tigela vou conseguindo distinguir o que foi meu do que foi nosso. Imagino como te ris engenhosamente do meu relato de alterada esquizofrénica, alarmista. A deliberada magia é aquela que tu não vês e os teus olhos que já não recebem o meu estímulo, não se abrem por preguiça de sofrer. Imensa a ignorância de quem fui, por te empregar os termos mais sublimes do meu dicionário. Não coxeies mais, de amor partido e pendurado, dobrando lágrimas como quem carrega estrelas e mares ao pescoço, ou eufemismos e falácias mal empregues.

Sofia, 2008

sábado, 19 de julho de 2008

Feito por medida. Espero que gostes.

Um nome. Duas pessoas. Uma vida. A minha vida. A de sempre, a recente. As mulheres, digo eu. Aquelas que se tornaram insuficientes, que me abriram um abismo nalgum recanto da alma, digo hoje, quando as vejo de tão longe.
De um passei a dois e confesso que houve alturas em que chegámos a ser três. Triângulo amoroso, um trio, sei lá, o que quiserem chamar-lhe. Até podia ter uma, mas se não tivesse a outra já me encontrava completamente insatisfeito como se a vida tivesse em dívida para comigo.
Fui-te amando. Sim, a ti. Tu sabes que agora falo para ti. Não foi amor à primeira vista, assumo, e não pensei que me causasses tamanho estrago quando resolveste deixar o meu espaço sem perguntares ou me deixares perguntar porquê.
Ainda me questiono se foi pela voz ruiva, ou pelas sardas espicaçadas, mas foste-me tornando assim, submisso e apaixonado. Só teu fui ficando. Porque ela, sim, a outra, aquela que te precedeu, foi-se desvanecendo transformando-se apenas na lembrança de um grande amor que por mais tempo que passe não conseguirei negar.
Mas foi por ti, por ti amor, que enfrentei marés e tempestades, foste tu que me levaste a moldar e a querer dar sempre o meu melhor, que acredito continuares a merecer.
Hoje, a ausência de uma relembra a falta de outra.
Três, dois, um. Sobro eu, sem uma nem duas. Mas nada nem ninguém me pode tirar tudo aquilo que um dia me deram, enquanto de modo mais ou menos indecente nos beijámos e amámos, jurando amor eterno e planos para a vida inteira.
E sou feliz, porque de uma maneira ou de outra vos trago comigo. O que mais importa é que em algum lugar do tempo só a mim pertenceram. E nesse lugar, garanto-vos que serão sempre minhas.
Por enquanto conto comigo e com uma mão cheia de sonhos. Como dizem por aí “Não há duas sem três.” Talvez não haja mesmo.
É tudo uma questão de esperar para ver.


Sofia, julho 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Porque é que fodemos o amor? “

Miguel Sousa Tavares responde:

“Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem que haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo."



Eu digo que não dá para acreditar em finais felizes. Não os há. Não os inventem. Cambada de lamechas e lunáticos! Vão em vez disso encher os ombros de casualidades, dispersem-se nos dias fumarentos, limitem-se a não beber mais do que três cafés por dia, a pagar as contas a tempo e a afogar as malditas histórias de amor em litros de cerveja. O amor é o mesmo que conduzir em dias de nevoeiro. Uma manobra de fugir à solidão individual a que todos estamos definitivamente condenados. O amor é a pior das dores de dentes, a mais dolorosa das enxaquecas, a derradeira e espicaçante dor menstrual .
Não vale a pena perdermos tempo a procurá-lo, a escrevê-lo, a cantá-lo. O amor é aquele espacinho de tempo entre o acordado e o adormecido em que inconscientemente pensamos que o mundo pesaria menos se o carregássemos com alguém.

Sofia, Julho 2008

sábado, 5 de julho de 2008

"In loving memory"

"Thanks for all you've done
I've missed you for so long
I can't believe you're gone and
You still live in me
I feel you in the wind
You guide me constantly

I never knew what it was
To be alone...no
Cause you were always
There for me
You were always waiting
But now I come home
And I miss your face so
Smiling down on me
I close my eyes to see
And I know
You're a part of me
And it's your song
That sets me free
I sing it while
I feel I can't hold on
I sing tonight
Cause it comforts me

I carry the things
That remind me of you
In loving memory of
The one that was so true
You were as kind as you could be
And even though you're gone
You still mean the world to me

I never knew what it was
To be alone...no
Cause you were always
There for me
You were always waiting
But now I come home
And it's not the same no
It feels empty and alone
I can't believe you're gone
And I know
You're a part of me
And it's your song
That sets me free
I sing it while
I feel I can't hold on
I sing tonight
Cause it comforts me

I'm glad He set you free from sorrow
But I'll still love you more tomorrow
And you'll be here
With me still
All you did you did with feeling
And you always found a meaning
And you always will
And you always will
And you always will

And I know
You're a part of me
And it's your song
That sets me free
I sing it while
I feel I can't hold on
I sing tonight
Cause it comforts me"

ALTER BRIDGE

Arrepiante. E é com ela que acabo por adormecer. Hoje,nenhuma palavra minha seria suficiente para arrebatar esta música e tudo o que ela me trouxe.

Sofia, Julho 2008

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Traz-me flores, uma pequenina para eu pôr no cabelo. Enche-me o colo delas, para que não sobre nem um pedacinho de mim a descoberto. Se quiseres podes ficar, temos tanto para dizer. Já sabes como funciona, o portão está sempre aberto, é só entrares e deixares que os teus passos façam o resto por ti. Podes procurar-me em cada canto, nalgum hei-de estar certamente, não posso é ficar parada à tua espera com tanto que tenho para fazer. Lembra-me de pôr perfume, de dar um jeito perfeito no cabelo e de vestir aquele vestido justo, que me está mais largo agora. Sim, emagreci, mas não perdi as formas de curva contra curva que me apreciavas segurar.
Só estou mais leve, e comigo apenas ficaram as lembranças boas tendo o tempo se encarregado do resto. O pó que não há entre os livros que por aqui deixaste nada mais quer dizer senão a falta que me fazes e as quantas vezes que te tenho procurado folha acima, folha abaixo nestas histórias decoradas que já misturo de tanto pormenor interpretado. Cada parede desta casa ainda chora a tua ausência/ presença ambulante sempre que vens em visita de médico, como padre ou senhor dos correios. Traz-me um beijo. Pode ser breve e morno, convenhamos que já não somos um casal apaixonado. E um abraço também. De tudo o que me levaste, confesso que é dos abraços que ainda hoje me lembro cada vez que a porta se abre e eu te vejo correr casa dentro. Para assim e mais uma de tantas vezes, me vires encher de flores, o regaço.


Sofia, Julho 2008

terça-feira, 1 de julho de 2008

São os pássaros a esconderem-se na copa das árvores e ela a adivinhar o que se perderá se ele partir. Será o descalabro se as botas dele descerem pela última vez aquela estradinha íngreme e deserta. Já não há pedidos de desculpas que possam servir para apaziguar os gritos, ainda que mudos, de alguém que se perdeu faz hoje precisamente muito tempo.
Sempre se deu conta que as botas seriam demasiado pesadas para ele, ele demasiado para ela, e ela demasiado pesada para si própria. E quantas foram as vezes que se abraçaram entre lágrimas e pés frios, jurando mentiras que já se sabiam ser apenas isso mesmo, ainda assim camufladas de verdades a longo prazo.
Hoje falta o silêncio na hora certa, e falta na hora certa porque há sempre silêncio. Falta a meninice, o sentido de abraço e de beijo, a noção de definir o que são eles ainda, um a um, quatro menos dois, como parte ou como o todo. O tempo encarregou-se de os tornar repelentes de si mesmos, apelantes de frustrações e risadas ensaiadas para as mesmas piadas, os mesmos momentos repetidos do dia. Olhar para trás não adianta nada, ninguém vive de memórias, ninguém é feliz com canções, cheiros ou sabores que fazem lembrar aquilo que fomos em tantas alturas, aquelas que consideramos agora, terem sido o tempo das nossas vidas. A raiva foi-se tornando mágoa, o amor se existia, hábito. E o relógio, as obrigações e responsabilidades dos momentos encarregaram-se de tornar o afecto como um adorno sem importância. E ela chora por dentro, não tem mais palavras molhadas para materializá-las, enquanto ele abafa as suas feridas por baixo de uma carapaça de cortiça fragilizada e esburacada em tempo de Inverno. Se para ela as lágrimas são palavras molhadas, para ele não passam da fraqueza dos loucos e deslocados. Não se amam. Talvez nunca se tenham amado. Mas ela não consegue sequer imaginar o que se perderá se ele partir. Será certamente o descalabro se as botas dele descerem pela última vez aquela estradinha íngreme e deserta, a qual dizem sempre de modo ostentoso, “levar à porta da nossa casa”.

Sofia, Junho 2008